O ponto de ônibus onde Brasília queimou a própria consciência
Galdino Jesus dos Santos, líder Pataxó, foi queimado vivo em Brasília por cinco jovens da elite local enquanto dormia em um ponto de ônibus. O crime tornou-se símbolo da violência contra indígenas, da impunidade e do racismo estrutural. Um memorial preserva sua memória, os assassinos viraram servidores e um advogado de defesa se elegeu governador
Na madrugada de 20 de abril de 1997, o líder indígena pataxó hã-hã-hãe Galdino Jesus dos Santos, de 44 anos, foi queimado vivo enquanto dormia em uma parada de ônibus na Asa Sul, em Brasília, depois de participar das comemorações do então chamado Dia do Índio e de reuniões com autoridades federais sobre conflitos de terra na Bahia. Cinco jovens de classe média alta da capital compraram combustível, voltaram ao ponto de ônibus e atearam fogo no corpo do indígena. Galdino morreu horas depois em decorrência das queimaduras. O crime provocou indignação nacional, protestos em todo o país e tornou-se um dos casos mais emblemáticos de violência contra povos indígenas no Brasil.
Brasília tem orgulho da imagem que projeta para o Brasil. Uma cidade planejada, racional, moderna e desenhada para representar o futuro. Mas, como dizia a Melisandre, a sacerdotisa vermelha de Game of Thrones, “a noite é escura e cheia de perigos”.E em alguns momentos uma capital pode revelar mais sobre si mesma do que qualquer monumento de concreto. Naquela madrugada, o Plano Piloto mostrou que também podia produzir barbárie com CEP nobre, carro importado e sobrenome conhecido.
A frase usada por alguns dos acusados entrou para a história pela crueldade quase burocrática. Disseram que queriam apenas dar um susto, fazer uma brincadeira, porque pensaram que a vítima era um mendigo. Como se a possibilidade de alguém dormir na rua autorizasse o horror. Como se o problema fosse apenas ter escolhido a pessoa errada para incendiar. Todos os acusados viraram servidores públicos, e o advogado de um deles chegou até a se eleger governador. Tristes trópicos.
Quem era Galdino Jesus dos Santos?
Galdino era uma das lideranças do povo Pataxó Hã-hã-hãe, da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, no sul da Bahia. Havia viajado a Brasília acompanhado de outras lideranças para participar das atividades oficiais do Dia do Índio e apresentar reivindicações relacionadas à recuperação de terras tradicionais em disputa com fazendeiros.
Na noite de 19 de abril de 1997, voltou tarde para a pensão onde estava hospedado e encontrou o estabelecimento fechado. Sem alternativa, deitou-se em um abrigo de ponto de ônibus na W3 Sul, a poucos metros da hospedagem. Ali foi encontrado pelos cinco jovens que mais tarde se tornariam réus de um dos julgamentos mais acompanhados da história do Distrito Federal.
A vítima foi socorrida por pessoas que passavam pelo local, entre elas, o advogado Evandro Pertence, filho do então ministro do Supremo Tribunal Federal Sepúlveda Pertence. Apesar do atendimento, as queimaduras eram gravíssimas. Galdino morreu ainda naquele dia.
Galdino, totalmente coberto por ataduras, no Hospital Regional da Asa Norte (Crédito: Reprodução)
A madrugada do crime
Segundo os autos do processo, os jovens passaram inicialmente pela parada de ônibus onde Galdino dormia, seguiram até um posto de combustíveis, compraram cerca de dois litros de gasolina e voltaram. Parte do grupo despejou o combustível sobre o corpo da vítima e os demais atearam fogo antes de fugir.
Os envolvidos eram Max Rogério Alves, Antônio Novely Cardoso Vilanova, Tomás Oliveira de Almeida, Eron Chaves Oliveira e Gutemberg Nader Almeida Júnior, que era menor de idade na época. Todos pertenciam a famílias de classe média alta de Brasília.
A violência do ataque chocou o país não apenas pela brutalidade do método, mas pela aparente banalidade da motivação apresentada posteriormente pelos acusados. O argumento de que pretendiam apenas assustar a vítima foi recebido pela opinião pública como uma demonstração de desumanização extrema dos pobres e dos indígenas.
Primeira página do Correio Braziliense sobre o crime (Crédito: Reprodução)
O julgamento e a condenação
O julgamento pelo Tribunal do Júri ocorreu em 2001. Os quatro réus maiores de idade foram condenados por homicídio doloso, quando há intenção de matar, a 14 anos de prisão em regime integralmente fechado. O menor de idade recebeu medida socioeducativa.
A defesa insistiu na tese de que não havia intenção de matar, apenas de provocar um susto. O júri rejeitou essa versão. A decisão foi considerada um marco simbólico, embora a trajetória posterior do caso alimentasse um debate persistente sobre seletividade penal, influência social e sensação de impunidade.
Em 2004, os condenados obtiveram livramento condicional. Ao longo dos anos, todos foram aprovados em concursos públicos. Tomás Oliveira tornou-se servidor do Senado Federal. Eron Chaves passou a atuar no Detran do Distrito Federal. Antônio Novely ingressou na Secretaria de Saúde do DF. Max Rogério trabalhou no Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Gutemberg Nader ingressou posteriormente na Polícia Rodoviária, nomeado para um cargo de confiança pelo presidente Jair Bolsonaro, após ter sido barrado anteriormente em concursos para polícias civis em função de sua vida pregressa.
O lugar do crime virou monumento
O ponto de ônibus da Asa Sul transformou-se em um dos espaços de memória mais importantes de Brasília. Poucos dias após o assassinato, o então governador Cristovam Buarque rebatizou a área como Praça do Compromisso, afirmando que a cidade precisava assumir um compromisso público contra a violência e a desumanização.
Em 2004, o local passou oficialmente a se chamar Praça Índio Pataxó Galdino Jesus dos Santos. O artista plástico Siron Franco instalou esculturas em homenagem à vítima, incluindo uma obra que representa um corpo envolto por chamas, tornando o espaço um memorial permanente da tragédia.
Primo do índio Galdino prestas suas homenagens no Monumento da Praça do Compromisso (Crédito: Reprodução)
Ibaneis Rocha e a defesa dos acusados
Um dos advogados que atuaram na defesa de acusados do caso Galdino foi Ibaneis Rocha, então profissional da advocacia em Brasília e posteriormente figura central da política do Distrito Federal. Sua participação integrou a equipe de defesa de réus do processo, em um julgamento que mobilizou intensa cobertura nacional e colocou a atuação dos advogados sob forte escrutínio público.
Na época, Ibaneis ainda não era político eleito. Formado em Direito pelo UniCEUB, havia construído carreira representando diversas categorias do serviço público e consolidava sua reputação na advocacia brasiliense. Sua atuação em casos de grande repercussão contribuiu para ampliar sua visibilidade no meio jurídico local.
Aqui é muito importante distinguir a função do advogado da responsabilidade criminal dos clientes. A atuação de defesa, mesmo em crimes considerados hediondos, integra o sistema de garantias do processo penal brasileiro. O fato politicamente relevante é que um profissional que participou da defesa em um dos casos mais traumáticos da história recente de Brasília se tornaria, anos depois, governador da própria capital onde o crime ocorreu.
Os assassinos sendo conduzidos para julgamento (Crédito: Reprodução)
Da OAB ao Palácio do Buriti
A projeção de Ibaneis Rocha cresceu principalmente por sua atuação institucional na Ordem dos Advogados do Brasil. Foi vice-presidente da OAB-DF, secretário-geral da Comissão Nacional de Prerrogativas do Conselho Federal da OAB, presidente da OAB do Distrito Federal entre 2013 e 2015 e, posteriormente, diretor do Conselho Federal da entidade.
Em 2018, filiado ao MDB, candidatou-se ao governo do Distrito Federal e venceu a eleição no segundo turno. Assumiu o Palácio do Buriti em janeiro de 2019, apresentando-se como gestor pragmático e defensor de uma agenda voltada para infraestrutura, segurança pública e reorganização administrativa. Foi reeleito em 2022, fortalecendo sua posição como principal liderança política do Distrito Federal.
Governador Ibaneis Rocha (Crédito: Reprodução)
A tentativa de golpe no 8 de janeiro
A trajetória política de Ibaneis atingiu seu momento mais delicado em 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. As imagens do quebra-quebra correram o mundo e provocaram uma crise institucional sem precedentes desde a redemocratização.
Na condição de governador do Distrito Federal, Ibaneis era a principal autoridade responsável pelas forças de segurança locais. Diante das evidências de falhas na contenção dos invasores, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou seu afastamento do cargo por 90 dias, sob a justificativa de possível omissão das autoridades distritais na prevenção dos ataques.
Ibaneis divulgou vídeo pedindo desculpas pelos acontecimentos, classificando os atos como terrorismo e vandalismo, e afirmou que os responsáveis deveriam ser punidos. Posteriormente, retornou ao cargo por decisão do Supremo Tribunal Federal, enquanto investigações prosseguiram para apurar responsabilidades administrativas e políticas relacionadas à segurança da capital.
O episódio marcou profundamente sua gestão e o inseriu de forma definitiva na narrativa nacional sobre a tentativa de Golpe de Estado de 8 de janeiro, não como participante do quebra-quebra, mas como governador cuja administração foi questionada pela atuação da segurança pública durante os eventos.
Praça dos Três Poderes durante a tentativa de golpe no 8 de janeiro (Crédito: Reprodução)
O legado de um crime que continua presente
Quase três décadas depois, o assassinato de Galdino permanece como uma ferida aberta na memória brasileira. O caso tornou-se símbolo do racismo estrutural, da violência contra povos indígenas e da distância entre indignação pública e efetiva responsabilização social.
Também revela uma peculiaridade de Brasília. Na mesma cidade onde um indígena foi queimado vivo por jovens da elite, alguns dos condenados seguiram carreiras estáveis no serviço público, e um dos advogados ligados à defesa tornou-se governador da capital. A história brasileira tem esse talento desconfortável para transformar tragédias em biografias paralelas.
O ponto de ônibus continua ali. Os ministérios continuam ali. O Congresso continua ali. E a pergunta que atravessa os anos permanece menos jurídica do que moral. O que uma sociedade precisa deixar de enxergar para que alguém seja incendiado enquanto dorme?