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"Direito de sonhar", diz diretora de documentário sobre meninas de Guaribas
Por Dulina Fernandes
Publicado em 13/06/2026 21:53
Piaui

O documentário 'A Fabulosa Máquina do Tempo', gravado em Guaribas, no Sul do Piauí, está levando para o mundo histórias de infância, sonhos e transformações sociais vividas por meninas do município que se tornou símbolo do combate à fome no Brasil. Após conquistar seis prêmios em festivais nacionais e circular por eventos internacionais na Alemanha, Polônia, México e outros países, o longa agora desembarca na Ásia para uma exibição no Festival Internacional de Cinema de Xangai, um dos mais prestigiados do mundo.

Em entrevista ao Jornal Cidade Verde, a diretora do filme, Eliza Capai, revelou que a ideia da produção começou a ser construída há mais de uma década, muito antes de as protagonistas nascerem.

Jornalista de formação, ela contou que chegou a Guaribas em 2013 após ler o livro Vozes do Bolsa Família, que analisava os impactos do programa na vida das mulheres brasileiras. O que encontrou no município a marcou profundamente.

"Eu escutava muitas mulheres da minha idade dizendo: 'Eu vivi a escravidão'. Era muito duro ouvir isso. Elas falavam que, quando eram meninas, sonhavam em encontrar um bom marido que lhes desse valor. Já as crianças diziam que queriam ser médicas, advogadas, professoras. Sonhavam a partir delas mesmas", relatou.

A diretora decidiu voltar anos depois para acompanhar como aquelas transformações sociais estavam impactando uma nova geração de meninas que já nasceram em uma realidade diferente da vivida por suas mães e avós.

Sonhos, liberdade e futuro

A pesquisa iniciada em 2021 resultou em uma oficina de audiovisual com 15 meninas entre 7 e 12 anos. A partir dos encontros, a equipe passou a registrar o olhar das crianças sobre temas como desigualdade, machismo, religião, casamento, futuro e liberdade.

Segundo Eliza, o filme acabou revelando algo maior do que imaginava.

"São meninas muito criativas, muito engraçadas, muito ousadas. Elas trouxeram um frescor para a narrativa. O filme fala da saída da miséria, mas também do direito de sonhar", afirmou.

O resultado tem emocionado plateias em diferentes países. A estreia internacional ocorreu no Festival de Berlim, na Alemanha, onde três das protagonistas viajaram pela primeira vez para fora do Brasil e também entraram pela primeira vez em uma sala de cinema.

"Foi uma sessão para mais de mil pessoas. Houve gargalhadas o tempo inteiro e aplausos no meio do filme. Foi muito emocionante porque elas puderam ver como o mundo as enxerga: inteligentes, carismáticas e maravilhosas", disse a diretora.

Prêmio de Melhor Atriz para as meninas de Guaribas

No último fim de semana, o documentário acumulou novas conquistas. No Cine PE, em Recife, recebeu quatro prêmios, incluindo o de Melhor Atriz concedido coletivamente ao grupo de meninas protagonistas.

"Foi um prêmio que nos deixou de queixo caído porque é um documentário. Mas mostra como o carisma delas é contagiante", comemorou Elisa.

Na Mostra Ecofalante, em São Paulo, o longa também foi escolhido pelo público como melhor filme e recebeu Menção Honrosa.

Da China para o mundo

Entre os momentos curiosos da produção está uma cena protagonizada por Tábata, uma das crianças do elenco. Durante uma conversa sobre o futuro, a menina afirma que sonha em ter uma loja de doces na China.

Agora, justamente a China será um dos próximos destinos do documentário.

"O Festival de Xangai é um dos maiores do mundo, um festival classe A. É uma honra muito grande levar essas histórias tão longe. E eles vão adorar a Tábata", brincou a diretora.

Estreia nos cinemas deve começar pelo Piauí

Após a trajetória internacional, a expectativa da equipe é lançar o filme nos cinemas brasileiros no final de julho. Segundo Elisa Capai, o desejo é que Teresina seja a primeira cidade a receber a exibição.

"O Piauí é a casa do filme. Nosso sonho é começar por aqui", afirmou.

A diretora também anunciou que, após o circuito comercial, a equipe pretende disponibilizar gratuitamente o documentário para exibições coletivas em escolas, cineclubes, associações e comunidades, especialmente em municípios sem salas de cinema.

Atualmente, segundo ela, existem apenas cinco salas de cinema em todo o estado.

"Ver um filme no celular é uma coisa. Ver na televisão é outra. Mas ver junto tem um poder muito grande. O cinema cria debate, aproxima pessoas e faz a gente enxergar outras realidades", destacou.

Recentemente, uma sessão pública realizada na praça central de Guaribas reuniu mais de 600 pessoas, em um município com cerca de 4 mil habitantes.

"Foi a primeira vez que teve cinema na cidade. Depois da exibição, as famílias ficaram debatendo o filme. Foi uma experiência muito bonita", relembrou.

 
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