Na endurecida rotina, o cinza do asfalto, a fumaça dos carros e o barulho desafinado do cotidiano aos poucos dão lugar ao verde e amarelo no asfalto. As bandeiras do Brasil voltam a representar apenas o orgulho de ser brasileiro e de morar no país do futebol, sem qualquer conotação política.
Na Rua Pereira Nunes, no trecho que conecta os bairros da Tijuca e Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, essa tradição ocupa o espaço urbano há quase cinco décadas, como mostrou reportagem feita pela Agenda do Poder.
O universo da Copa do Mundo já dava os seus tímidos sinais na troca de figurinhas que mobilizou e ainda mobiliza pequenas multidões em shoppings, condomínios, escritórios, escolas ou qualquer outro lugar.
Rua Pereira Nunes virou referência em decoração de rua para Copa do Mundo – Crédito: Sofia Miranda/ Agenda do Poder
É a magia da Copa do Mundo invadindo o cotidiano, mesmo em meio a uma conexão ainda tímida com uma Seleção Brasileira formada em grande parte por jogadores sem identificação com os torcedores do país.
É o roteiro lógico e óbvio para aquela já familiar nostalgia de quem busca referências no passado sobre um tempo mais colorido que não volta mais. Enquanto estava no escritório nesta quinta-feira à tarde, um colega ligou a TV para acompanhar a abertura da Copa. Foi como se a imagem do estádio lotado, do troféu, dos jogadores abraçados e das bandeiras interrompesse a previsível rotina. “Vai começar a Copa, gente”, disse um colega.
Espetáculo da abertura da Copa do Mundo de 2026 / Reprodução
Algo mágico acontece. E, de repente, me pego pensando em memórias de uma infância onde a camisa da Seleção Brasileira parecia mais verde e amarela. De um tempo em que as figurinhas dos jogadores da Copa chegavam enroladas no chiclete e de uma exigência por uma seleção que representasse o país do futebol.
Vivi a frustração da eliminação em 1986 para a França nos pênaltis. Sofri com aquela derrota para a Argentina em 1990. E, em 1994 foi criado aquele cenário de forte cobrança: como o Brasil, o país do futebol, poderia ficar 24 anos sem um título mundial?
Foi quando aquele orgulho, antes limitado aos relatos de um museu de memórias saudosistas sobre Pelé, voltasse a despertar com um novo gênio da bola fazendo a história diante dos meus olhos.
Seleção Brasileira de Pelé, Romário e Ronaldo construíram identidade vencedora / Crédito: Montagem
Depois de Romário, ainda vieram Ronaldo Fenômeno, Rivaldo e Ronaldinho para conduzir a Seleção Brasileira à conquista do penta na Copa do Mundo de 2002. E, assim como na época do tetra, agora estamos mais uma vez há 24 anos sem títulos mundiais.
Mas algo mudou.
Não há mais aquela forte cobrança, como se o título fosse obrigação. Embora a Seleção Brasileira conte com jogadores nas principais ligas do planeta, não temos mais protagonistas no futebol mundial. Os gênios da bola dos tempos atuais não falam mais português.
Estamos vivendo o fim da Geração Neymar, à espera de um milagre que desafie a lógica e o faça sair da sala de fisioterapia, calçar chuteiras e voltar a ser o protagonista da Seleção Brasileira. Nem os torcedores mais ufanistas acreditariam nesse roteiro. O momento indica uma Seleção Brasileira que já não figura entre os favoritos ao título mundial.
Mas há uma fagulha de esperança. Endrick, de 19 anos, mostra algo que os outros não conseguem mostrar: estrela. De repente, é possível ver que os fotógrafos passam a buscar cliques dele nos treinamentos.
A história que está sendo contada às vésperas da estreia contra o Marrocos não é a de Vini Jr ou a de Raphinha, astros de Real Madrid e Barcelona. Também não se fala mais tanto da recuperação de Neymar. A jornada do herói é a de Endrick, que tem ofuscado os jogadores mais experientes da Seleção Brasileira.
Vendido precocemente do Palmeiras para o Real Madrid, não se firmou no gigante espanhol e buscou o seu espaço no inexpressivo Lyon, da França. Empilhou gols no clube e voltou a ganhar oportunidade na Seleção Brasileira. Mas sempre apontado como “azarão”. Em entrevista às vésperas da convocação, o capitão Casemiro chegou a dizer que ele não fazia parte do grupo principal.
Aí, Endrick entra no segundo tempo do amistoso preparatório para a Copa contra o Egito e faz o gol da vitória.
Capaz de aliar poder de decisão, força física, bom posicionamento e velocidade, Endrick tem mexido com o imaginário coletivo de um país que viu o menino Pelé surpreender o mundo em 1958.
Ele ainda é reserva no time de Ancelotti. Mas em uma Seleção Brasileira com poucas conexões com o torcedor, Endrick tem DNA de protagonista, encarnando a esperança no hexa enquanto Neymar faz fisioterapia.