Foto: Arquivo/Cidadeverde.com
O Piauí registrou cinco feminicídios em 2026 até o dia 30 de março, uma redução de 75% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram contabilizados 20 casos. Apesar da queda no início deste ano, dados consolidados de 2025 mostram que a maioria das vítimas foi morta sem qualquer proteção do Estado e, em muitos casos, sem que a violência tenha sido formalmente registrada.
De acordo com o 1º Boletim de Dados de Feminicídio no Piauí, produzido pela Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-PI), 89,2% das vítimas de feminicídio em 2025 não possuíam medida protetiva vigente.
Ao todo, foram 37 mulheres assassinadas no estado no ano passado. Destas, apenas quatro tinham medida protetiva. O levantamento também aponta que 78,4% das vítimas, 29 dos 37 casos, não haviam registrado boletim de ocorrência contra o autor antes do crime.
Os dados indicam que, na maior parte dos casos, a violência evolui sem chegar ao conhecimento das autoridades.
Perfil dos autores
Foto: Reprodução / SSP-PI

O perfil dos autores reforça o caráter íntimo dos crimes. Quase 60% dos feminicídios foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros das vítimas. Ex-companheiros aparecem como principais autores, com 9 casos (24,3%), seguidos por companheiros atuais, com 6 (16,2%), e cônjuges, com 3 ocorrências (8,1%).
Quando considerados todos os vínculos afetivos, incluindo namorado, ex-namorado e amante, o número chega a 22 casos, o equivalente a 59,5% dos feminicídios registrados no estado.
O boletim aponta que a predominância de vínculos íntimos evidencia que o feminicídio, na maioria das situações, está associado a relações marcadas por controle e violência de gênero.
Outros vínculos familiares também aparecem entre os autores, como irmãos, padrastos, primos, genro e sobrinho, que somam nove ocorrências.
Principal local dos feminicídios
.jpg)
Feminicídio em kitnet no bairro Piçarreira
A análise também mostra que a residência é o principal cenário dos crimes. Dos 37 casos registrados em 2025, 22 ocorreram dentro de casa, o equivalente a 59,5%. A área rural aparece em segundo lugar, com 7 casos (18,9%), seguida pela via pública, com 4 ocorrências (10,8%).
Dificuldade de acesso à proteção
A ausência de medidas protetivas e de registros formais, como o boletim de ocorrência, é apontada como um dos fatores que dificultam a atuação preventiva do Estado, em um contexto em que muitas vítimas não conseguem acessar ou acionar os mecanismos de proteção por medo, dependência emocional e financeira, descredito nas instituições, ameaças, entre outros motivos.
O relatório também destaca que a violência de gênero está relacionada a relações de poder e controle, frequentemente presentes no ambiente doméstico, onde se concentram a maioria dos casos.
Embora o número total de feminicídios em 2025 (37) represente uma leve redução em relação a 2024, quando foram registrados 40 casos, o cenário permanece dentro da média histórica recente no estado, indicando a persistência do problema.
Especialistas apontam que o enfrentamento à violência contra a mulher passa pelo fortalecimento da rede de proteção, ampliação do acesso à informação e incentivo à denúncia, como forma de interromper o ciclo de violência antes que ele evolua para o desfecho mais grave.